21 outubro 2017
21 outubro 2017,
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A Cor-Agem como um convite Natalício

Com a falaciosa desculpa de que é necessário preservar a segurança das pessoas num condomínio residencial, um edifício de 108 apartamentos, numa cidade do interior, faz uso indiscriminado de duas portarias, uma para os residentes, e outra para “os prestadores de serviço”, o mesmo acontece com os elevadores. Diante disto, “todos” os prestadores de serviço devem obrigatoriamente entrar e sair por estes ‘caminhos’ específicos indicados a eles. Este tipo de conduta indica que existe uma acepção de pessoas. É possível distinguir as pessoas, utilizando de um argumento supostamente válido de que a segurança deve ser assegurada. A pessoa fica em segundo plano em nome da segurança. E nesta atitude se perpetua, silenciosamente, que somos diferenciados a partir dos statusque ‘carregamos’: proprietário e serviçal. Não somos pessoas, somos o statusque carregamos. Esta ideia é tão fortemente corroborada em nossas ações que inclusive é assumida por aqueles que trabalham como ‘prestadores de serviço’ dentro do próprio edifício. Isto é, a distinção por statusé assumida como ‘natural’ e ‘normal’ por aqueles que estão na mesma condição de todos aqueles outros que se dirigem ao condomínio para ‘prestarem serviços’, entre elas, as diaristas e as domésticas. Os primeiros a descriminarem as diaristas e as domésticas são os próprios ‘prestadores de serviço do condomínio’, porteiros, zelador e outros, e, ao mesmo tempo, os ‘proprietários’ e demais familiares e agregados a família, que já trazem incorporados em si que, de fato, esta acepção é mais que natural, e, que é preciso que existam ‘caminhos diferentes’ para pessoas com status diferentes.

 

Certo dia, uma diarista, após a conclusão de sua jornada de trabalho, ao se encaminhar para saída do condomínio, tem o ‘portão social’ fechado em seu ‘rosto’ ao mesmo tempo que o ‘portão dos prestadores de serviço’ começa a se abrir, sendo que um está ao lado do outro. Melhor explicando o cenário do evento, uma morada tem o portão aberto para sua saída do edifício, a diarista a segue para sair pelo mesmo portão, o social, mas, abruptamente, o portão se fecha e ela quase fica prensada no mesmo. Ninguém se espanta, nem o porteiro, nem a residente, todos creem que ‘deve ser assim’.  A única a se espantar é a própria diarista que quase sofre ferimentos para salvaguardar a ‘diferenciação das pessoas’ que se faz pelo uso de portões e elevadores diferentes.

 

Aqui começa o Natal.

Toda história da salvação, da tradição judaico-cristã, principalmente através dos profetas, carrega consigo a mensagem de que o salvador não está na monarquia (nos governos) nem nos sacerdotes (estrutura religiosa), a salvação acontece através da relação com as pessoas.

O nascimento de Jesus numa manjedoura, e não num estaleiro, deixa claramente evidente que o Deus Cristão é singular, ele se faz presente na historia na pessoa de Jesus, dignificando assim a pessoa em si, independente de seu status, afinal, a Divindade se fez homem numa situação de miséria, ela se ‘esvaziou’ de todo seu ‘poder e glória’ para se ‘fazer menor’, para assim, seguindo a mensagem profética de Isaías, ao se ‘curvar’, ao se fazer pobre e menor com os menores, a divindade se ‘ergue’ para dignificar a toda e qualquer pessoa.

 

O Natal só tem sentido quando entendemos que a pessoa deve ser ‘erguida’ em sua dignidade através da própria vinda de Deus, que ao se fazer homem, pessoa, resgatou a dignidade de todos. O Natal acontece quando a pessoa é reconhecida e respeitada como pessoa.

 

Isto traz desafios para todos os que se dizem seguidores da proposta cristã. O primeiro e mais incisivo é o de ‘colocar a pessoa em primeiro lugar’, inclusive contrariando as pretensas falácias de seguridade. Se o cristão entende que isto é o fundamental da mensagem cristã, ele é desafiado a sair do comodismo de seguir as ‘leis’ (inclusive as leis do condomínio onde eventualmente possa viver) para corajosamente propor outras formas de trato para com todas as pessoas. Isto é, o cristão é capaz de ir além de tudo, segurança, economia, entre outros, para colocar a ‘pessoa em primeiro lugar’.

 

Assim, o maior de desafio do cristão é ter “cor-agem” (coração e ação), isto é, é estar convencido de que a pessoa esta acima de tudo (esta é a convicção, o coração), mas não apenas convencido, é estar disposto a ‘agir’ para encontrar alternativas no mundo que ainda mede as pessoas pelo status(esta é a ação). O cristão ao mesmo tempo que se convence da mensagem do Natal, que a pessoa é a prioridade no nascimento de Jesus, busca, inteligentemente, uma mudança nas estruturas para que esta pessoa possa estar dignificada em todo e qualquer lugar. E isto tem inicio com as mudanças, por exemplo, das ‘regras de um condomínio’.

 

O Natal é um chamado para o cristão exercer sua “transparência”. E isto também é fruto de coragem! Quem se diz cristão, deve ser capaz de ‘transparecer’ a presença de Deus em sua vida e em suas ações, ou seja, é capaz de reconhecer Deus no ‘encontro com o outro’. E para isto, é preciso ser capaz de mudar ‘leis’ para colocar a ‘pessoa em primeiro lugar’ mesmo que isto gere medo, mesmo que isto gere mal estar, mesmo que isto gere perseguição, pois, quem acredita nesta prerrogativa, da pessoa estar em primeiro lugar, está ao lado da Justiça, afinal, Justiça é colocar a pessoa em primeiro lugar, e, por isso, receberá o ‘Reino de Deus’.

 

A mensagem do Natal traz consigo um convite para uma mudança no sentido da vida, na concepção do que é a vida e do que são as pessoas, isto desloca muitas opiniões que já estavam enraizadas em nossas vidas, isto provoca instabilidade, afinal, o Natal convida a repensar a própria vida e as relações que estamos tecendo com os outros e conosco mesmos. Isto pode gerar medo. Por isso, é preciso lembrar a fala do Anjo que guia os Pastores para um ‘novo caminho’, um caminho que leva a Jesus e que exige mudanças no modo de pensar (convicções, coração) e de se relacionar com todos (agir): “Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria” (Lc 2,10).

 

QUE O NATAL NOS PLENIFIQUE DE CORAGEM!!!

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Fabio Camilo Biscalchin

21/10/2017

 

(Também disponível em PDF)

2017-10-21_A Cor-Agem como um convite Natalicio.

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