Marcos Zapata (Século XVIII) – Catedral de Cusco (Peru)
O quadro “A Última Ceia” que se encontra na Catedral de Cusco foi pintado pelo artista cusquenho Marcos Zapata em meados de século XVIII.
Este quadro é composto por três movimentos muito intensos:
O Primeiro movimento tem origem na janela acima de Jesus:
Nesta janela, se observa a “Estrela de Belém” que anuncia e aponta a vinda do Messias, do Ungindo de Deus, que vem anunciar o “Reino de Deus” que é Fundado na JUSTIÇA. Se Deus estivesse no governo de qualquer nação, a sua ação se pautaria na garantia da JUSTIÇA.
O Segundo movimento está fundado na Ceia:
Jesus revela que a JUSTIÇA acontece quando todos tem o que comer. A JUSTIÇA de Deus é concreta e não abstrata. É comestível e não uma ideia. Só vamos ter JUSTIÇA se todos tiverem o que comer com dignidade, e, não apenas comer para sobreviver, revirando as latas de lixo ou pedindo em semáforos ou em porta em porta.
A “comensalidade aberta” proposta pelo Jesus histórico demonstra concretamente, a partir da cosmologia de sua época, que junto a comida só se reuniam os iguais, Jesus, demostra que todos são iguais ao comer com todos da sociedade: o sacerdote, o cobrador de imposto, a prostituta, entre outros. Logo, JUSTIÇA se faz com a dignificação das pessoas através do bem comer.
Esta ceia em particular tem algumas peculiaridades típicas da realidade cusquenha. No menu do jantar, o prato que Jesus e seus 12 apóstolos estão prestes a degustar é um Cuy Peruano, pequeno roedor (porquinho da Índia) cujo consumo é muito típico nas montanhas do Peru, ladeado dos vários tipos de batatas ali produzidas, bem como os multiplos tipos de milhos que inclusive serve de bebida, o “Chicha Morada”, suco feito com o milho roxo, que é visto sobre a mesa. Todos os elementos que são produzidos pela comunidade pré colonização era comum a todos.
A comida era suficiente para todos, até o momento da dominação espanhola (que aconteceu a partir de 1532), aqui no quadro representato por Francisco Pizarro, o lider da conquista.
Ai se entende a figura na ceia de Judas Iscariotes que foi retratado por Zapata (o pintor) com o rosto de Francisco Pizarro olhando para a frente e com a saco de moedas, isto é, a colonização espanhola saqueou, roubou toda riqueza da nação INCA, daqueles que residiam ali, da comida a liberdade e, consequentemente, a vida digna. O olhar de Pizarro é intimidador, ele está olhando para você, e, seu olhar significa que, como ele, você é pecador a todo momento em que não promove o a JUSTIÇA, isto é, aquele que ao se ludibriar e se iludir pelo poder, principalmente, oriundo do dinheiro, desconsidera a pessoa, colocando tudo antes do valor humano.
O Terceiro movimento é vislumbrado com a cena de “abertura” do quadro, visto ao lado esquerdo do quadro, a cruxificação:
A cruxificação indica que a dominição espanhola NEGOU a JUSTIÇA proposta por Deus, através de Jesus. A morte de Jesus significa a morte da proposta de JUSTIÇA que garantia o que era comum a todos: a vida em comunidade, e a fartura da comida. Substituida pela escravidão e pobreza, isto é, a Morte.
Uma possivel interpretação do quadro pode ser vista pela “abertura” do quadro (lado superior esquerdo), a cruxificação de Jesus, isto é, a negação da JUSTIÇA, que não passa mais pela partilha da comida, e termina (lado direito inferior direito), com Francisco Pizarro te perguntando: você continuará perpertuando a INJUSTIÇA, seu pecador, isto é, seu animal descrente do valor da dignidade humana.
Outra possível compreensão interpretativa do quadro se faz através da própria gravura de Francisco Pizarro. Ele com o seu olhar penetrante está te informando: “se você aceitar ser entorpecido pelo poder do dinheiro, a consequência será a Cruz, isto é, a Morte da JUSTIÇA, que aparece concretamente com a ausência de comida. O roubo, o saque, aos moldes da ganância da conquista imperialista espanhola, só tem como resultado a fome, a miséria, a Morte!
Fabio Camilo Biscalchin
25/01/2017
(Disponível também em PDF)
2017-01-25_Última Ceia Marcos Zapata (Sec XVIII) – Catedral de Cusco (Peru)
