19 outubro 2018
19 outubro 2018,
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A vergonha que tenho do professor que eu sou.

(Fabio Camilo Biscalchin & Daner Hornich, pelo “Dia dos Professores 2018”).

 

[1]      A vergonha é o reconhecimento de que algo não vai bem. Hoje, este sentimento parece ter desaparecido, mas é preciso resgatá-lo. Envergonhar-se é preciso. São tantas as coisas de que precisamos sentir vergonha. Eu, também na minha ação de professor, tenho me envergonhado de mim mesmo porque não fui capaz de ensinar ao menos três ideias fundamentais que poderiam transformar a vida e a sociedade onde estou inserido. Diante disto, peço desculpas à sociedade pela minha falha como educador e reconheço minha vergonha neste momento histórico de nosso país, pois sei que esta minha falha também colabora para um falimento de vida plena.

 

[2]      As três ideias fundamentais a que me refiro são: [a] Sempre fazer perguntas inteligentes frente a todas as afirmações que nos oferecem; [b] liberdade e igualdade não são contraditórias, são condições para uma vida fraterna; [c] a solidariedade é a condição essencial para a vida numa comunidade democrática.

 

[3]      Perguntar, de modo inteligente, é preciso! A pergunta é um dos sinais de que estamos dispostos a dialogar, haja vista que o nosso ponto de vista não é completo e precisamos ouvir mais para poder alargar nosso conhecimento sobre o assunto que buscamos conhecer. A pergunta, entendida deste modo, é um convite ao reconhecimento da existência de outra pessoa, que, certamente, pensa diferente de mim. E reconhecer que existe o diferente é o primeiro passo para sair das condições de:

[a] idiotice, isto é, daquele que somente pensa em si próprio e se fecha no seu próprio mundo e, por isto, possui uma visão estreita da realidade;

[b] imbecilidade, isto é, daquele que precisa de outros para entender a realidade onde vive, e pior, aceita o que os outros dizem sem buscar as fontes das informações;

[c] fanatismo/ fundamentalismo, concebida como a consequência da imbecilidade e da idiotice, isto é, como a aceitação cega e firme a um único ponto de vista, que leva à intolerância e à violência.

Infelizmente, muitos universitários, muitos professores, e, muitos que ocupam cargos diretivos agregam todos estes atributos e, vários destes, foram meus alunos.

 

[4]      Como viver bem com os outros se não temos as mesmas condições para escolher? Sem a igualdade de condições, não é possível escolher. Afinal, sem condições, passa-se ao estado de sobrevivência e, quando se sobrevive, não há escolhas, existe apenas uma situação imediatista: buscar a sobrevivência para o dia seguinte. Não basta fazer uma caridade de manutenção da miséria, é preciso oferecer condições para alçar as pessoas à condição de vida, para que, estando com a vida, possam almejar um sentido e, consequentemente, possam viver bem consigo mesmos e com os outros ao seu redor.  Quem não faz perguntas torna-se fascista, julga a todos, única e exclusivamente, a partir do seu ponto de vista e de suas condições de vida e acredita que todos têm a mesma oportunidade de alcançar aquilo que ele próprio vive.

 

[5]      A solidariedade é o fundamento da vida em comunidade e a solidificação da democracia. Como ser fascista/fundamentalista e viver em comunidade? Vivemos em um mundo de “ficção científica”. Fazemos “teatro” de que reconhecemos as pessoas e vivemos em comunidade, mas como acreditar nisto se a nossa primeira escolha é eu estar bem e os outros que se percam na danação, afinal, eu sou merecedor, tenho méritos, os outros que se esforcem. Quando estes tipos de pensamentos prevalecem, não conseguimos enxergar que quem está em condição de sobrevivência não está ali por mérito, mas por decorrência da desigualdade social perpetuada pela idiotice, pela imbecilidade e, então, pelo fascismo/fundamentalismo das pessoas, principalmente, por aqueles que saíram da universidade.

 

6] Tudo isto assinala que, o valor da justiça não alcançou o coração do aluno; ele não se permitiu se convencer, na sua inteligência e no seu sentimento, em suma na sua integridade, de que a justiça é colocar a pessoa em primeiro lugar, é ir além de uma mera operação da lei. Supostamente isto aconteceu, pela falta de uma presença mais marcante do educador e de toda comunidade educativa, que, no momento atual, opta por uma educação à distância.

 

[7]      Escolher uma pessoa, fruto da manipulação de um momento fascista da história confirma duas ideias: [a] “os políticos são reflexos daquilo que somos” (Fernando Savater, ‘Ética para meu Filho’), [b] isto significa que, também, somos frutos dos resquícios das manipulações fascistas, somos fundamentalistas (só existe uma verdade, a minha), violentos e repletos de raiva e inveja por aqueles que podem alçar uma condição melhor que a miséria e a exclusão.

 

[8] Há cinquenta e um anos, Paulo VI escreveu: “Se é verdade que o mundo sofre por falta de pensamento …” (Carta Encíclica Populorum Progressio, 1967, §85).

Hoje não é mais preciso do “se” condicional e hipotético, já que é fática a falta de pensamento em todos os lugares, inclusive, no ambiente universitário. Afinal, para se alcançar o pensamento e a inteligência é preciso saber ler e interpretar as diversas escritas e contextos, para se perceber que, o mundo não é planificado e planejado, mas cheio de contradições, isto é a vida. Somente quem está disposto a reconhecer isto como vida, é que se abre a uma cultura de vida, que considera como prioridade “a vida da pessoa”, principalmente da pessoa mais pobre e miserável. Mas, esta compreensão é para poucos porque falta o pensamento.

 

[9]      Assim sou e estou envergonhado pelo professor que fui e tenho sido, pois não consegui, nestes dezoito anos de ensino, elevar a inteligência daqueles que passaram pelas minhas palavras e minhas ações educativas. Perdoem-me!

 

Fabio Camilo Biscalchin

Daner Hornich

19/10/2018

 

(Também disponível em PDF)

2018-10-19_A vergonha que tenho do professor que eu sou

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