14 março 2012
14 março 2012,
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André Dela Vale [*1]

Introdução

Este texto tem como objetivo apresentar alguns elementos de como o escritor de contos infantis Tales de Andrade abordou em seus dois principais livros – “Saudade”[*2] , publicado em 1919, e “Campo e Cidade”[*3] , publicado em 1964 – a modernidade que chegava ao Brasil, representada pela relação entre o campo e a cidade e, consequentemente, pela vida urbana.

Tales de Andrade nasce em Piracicaba em 1890. Neto de professores e sitiantes, torna-se professor e dedica sua vida à literatura, escrevendo romances, contos infantis e cartilhas, todos com a intenção de serem utilizados nas escolas. Sua criação literária conta com aproximadamente trinta livros, entre contos e romances. O trabalho como professor e a vida no campo serão elementos presentes na sua vida e, por conseguinte, o principal assunto de suas obras.

Do conjunto da obra de Tales de Andrade, nenhum livro ficou mais conhecido que Saudade, escrito em 1917 e publicado em 1919, que conta, até os dias atuais, com mais de noventa edições. A primeira edição, com tiragem de 15 mil livros, foi publicada pelo Governo do Estado de São Paulo, o que confere a ele um caráter oficial.

A publicação do livro Saudade coincide com o surgimento da literatura infantil no Brasil. Segundo Arroyo[*4] , podemos entender essa obra como representante desse movimento literário, ficando disponível para ser lido pela infância, sobretudo pelas crianças matriculadas nas escolas, já que muitas das edições do referido livro visavam a esse tipo de público.

A literatura infantil, no momento em que Tales de Andrade escreve Saudade, buscava se estruturar como literatura independente, com funções claras e vinculadas ao projeto político daquele período, com vistas a introduzir em seus leitores (principalmente as crianças matriculadas nas escolas) um sentimento de amor à pátria [*5].

Também podemos destacar que nesse início de século XX foi extremamente marcante a ideia de modernidade que vinha da Europa, representada pela transformação e desenvolvimento urbano das cidades, pelo advento do automóvel, pelas ferrovias e por novos meios de comunicação [*6].

As noções de campo e de cidade no livro Saudade

O enredo de Saudade apresenta a história do narrador-personagem Mário. O autor Tales de Andrade perpassa o sentimento de desconforto do personagem Mário e de sua família por terem que viver na cidade [*7].

Logo na chegada à cidade, tudo se torna diferente e parece estranho. A primeira impressão de Mário sobre a cidade, sem ter vivido nela ainda, é ter “achado tudo esquisito, tão barulhento! Aquilo parecia um sonho ruim”. A cidade é retratada como um lugar mais movimentado, e o barulho surge do movimento das pessoas que vivem na cidade e de seus acontecimentos[*8] .

Dona Emília, mãe do personagem Mário, tenta acalmá-lo dizendo que a vida na cidade seria menos trabalhosa e mais alegre. Menos trabalhosa porque há na cidade uma oferta maior de produtos e de serviços, fazendo com que as pessoas não precisem ter que plantar para colher, não ficando à mercê do tempo de safra e, principalmente, pelo fato de o trabalho ser outro e menos penoso que a lida com o sítio. No entanto, Mário não consegue perceber assim a vida na cidade. Para ele, essa vida, torna-se um verdadeiro “castigo”, pois sua mãe fica preocupada com os móveis, com o assoalho e com a aparência de seu filho, obrigando-o a andar “bem vestido”[*9] .

O castigo que o personagem Mário descreve é com relação a certa liberdade que havia no sítio, pois se podia correr para qualquer canto, brincar mais livremente e portar-se de uma forma menos “polida”. Já na cidade ocorre um controle maior sobre os filhos – pensemos nos carros, bondes, etc., que podem ferir gravemente as crianças. Na cidade existe um controle maior sobre as pessoas, é um lugar mais perigoso, mais agitado.

O que a mãe de Mário caracteriza como menor quantidade de trabalho, como menos esforço, como comodidade, torna-se para ele um verdadeiro tormento, um desconforto. A vida na cidade não para, o movimento é constante e enjoativo. Mário se vê agredido, preso, enjoado e acuado na cidade.

Tales de Andrade, por meio de seus personagens, explora outro elemento da cidade: o fracasso. A família do personagem Mário, ao vender o sítio, investe o seu dinheiro em um armazém na cidade, porém o empreendimento não vinga. Vejamos a seguinte passagem:

Disse que as coisas não corriam bem [o pai do personagem Mário]. Efetuara transações infelizes. Só na última partida de açúcar sofrera um prejuízo de alguns contos de réis.
No livro de assentamentos havia um fiado enorme, completamente perdido. Estava todo em mãos de gente velhaca, trampolineira.
Dantes, quando possuía a fazenda, tudo parecia cair do céu por descuido. Não pagava aluguel de casa, não pagava água, lenha, café, feijão, arroz, batatas, cebola, banha, leite, queijo, manteiga, frangos, ovos, verduras, frutas, flores… Agora? A despesa, já despropositada, crescia cada vez mais. Tudo custava muito dinheiro. Mas não era só isso. Percebia-se explorado pela maioria dos que o rodeavam. Ainda naquele dia arranjara mais um desafeto. E por quê? Somente porque não lhe emprestara certa quantia de dinheiro que estava no banco.
Qual! Era preciso mudar de vida. Era forçoso acabar com aquilo. Era necessário gastar menos, se não, ao cabo de algum tempo chegariam à miséria. [*10]

Percebemos que o pai do personagem Mário não conseguiu fazer do armazém fonte de sustento da família, perdendo o padrão de vida abastado que tinha no campo. Em parte, esse fracasso se dá porque lhe faltava experiência nesse tipo de comércio. Entretanto, a principal causa se é percebida na assertiva: a cidade é traiçoeira e a “gente velhaca e trampolineira” corrompia a forma justa com que a família do personagem-narrador trabalhava. A família não era só inexperiente nos negócios, era inexperiente na cidade, pelo menos é isso que o enredo de Tales de Andrade aparenta propor.

A ingenuidade e a inexperiência misturadas à falta de caráter do homem da cidade levam à falência a gente de bem que vem do campo, e para piorar essa situação, o que caía como descuido no sítio, e era a base da alimentação da família, agora é comprado e vendido na porta da casa e isso enjoava àqueles que não estavam acostumados.

A cidade é, ao mesmo tempo, o lugar do comércio, de relações financeiras, que possibilita o sucesso e a ruína, a abundância e a miséria. É o lugar do sucesso e da incerteza. Na cidade, o homem pode conhecer a fortuna, contudo pode ser um lugar perigoso e traiçoeiro para as pessoas, principalmente as simples e trabalhadoras do interior. A ingenuidade e a falta de sorte poderiam levar facilmente as pessoas à falência.

Tales de Andrade organiza o enredo de Saudade de uma forma que só o ato da compra de um novo sítio pelo pai do personagem Mário, e a possibilidade de retorno ao campo, já é o suficiente para tudo na vida da família de Mário melhorar. A mãe, que se encontrava doente, melhora, os problemas financeiros acabam repentinamente, tudo melhora. Com o tempo, o pai do personagem Mário vai organizando o retorno da família para o campo, que não é imediato, mas fica claro que todos estão felizes. Isso nos permite inferir que o tipo de vida simples é o escolhido por Tales de Andrade como modelo a ser seguido. O ser simples é o que permite maior liberdade ao homem. No campo, pelo tipo de trabalho exigido, o homem pode ser mais rústico, menos polido. O campo permite maior liberdade ao homem. Viver no campo permite que o trabalho sustente a família, diferente do que acontece na cidade. O campo, pela fartura de alimentos, permite o crescimento dos filhos e os deixa longe da miséria.

No campo o homem tem um espaço maior de atuação do que na cidade. A cidade exige, como vimos anteriormente, um conjunto de vestimentas, de comportamentos para estar socializado. No campo não. O requisito “roupa” acaba tendo sua importância estética reduzida, pois no lugar que se cuida dos animais, que se plantam árvores, que se colhem frutas, que se abre mata e que se fica em contato direto com a terra, não há como exigir que se tenha cuidado com roupas ou vaidades desse tipo. O homem, pela forma como se constitui o campo, tem que ser simples.

Segundo a construção literária de Tales de Andrade, o campo é o lugar da calma, da família, dos verdadeiros valores e isso, em certo sentido, porque está longe da cidade. Em outra passagem do livro “Saudade”, uma amiga da família do personagem Mário vai visitá-los quando suas terras já estão cultivando e produzindo, ou seja, o sítio já está formado. Nessa visita, os familiares de Mário travam um diálogo sobre o campo, dizendo que é sim um lugar bom para morar, que é saudável. A visitante, todavia, enuncia que jamais conseguiria viver ali por causa das noites escuras, que de tão escuras e feias são de causar medo. A mãe do personagem Mário retruca essa opinião, declarando a beleza, pureza e amor encontrados em tudo no sítio. O trecho destacado é muito significativo nesse sentido:

Pois a luz elétrica, a bulha das ruas e os guardas, Dona Francisca, valem pouco em comparação com o que se tem no campo. No campo, só o anoitecer quanto não vale? Aqui… Bem dizem os escritores e cantam os poetas: ‘A tarde traz a porção de poesia de que precisa o nosso espírito. Todos os rumores tomam a suavidade de um suspiro perdido. Em todas as nuvens se apaga a refulgência de ouro, e o esplendor, que se não deixa fitar, é então atenuado. O céu derrama uma doçura, uma pacificação que penetra na alma e a torna também pacífica e doce… O piar velado e curto dos pássaros traz a lembrança de um ninho feliz. Em fila, a boiada volta do pasto, cansada e farta, e vai ainda bebericar no tanque. Um carro retardado, pesado de troncos, geme pela sombra dos atalhos. As casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janela acesa em brasa, e os cimos redondos das árvores apinhadas, parecem ficar, de repente, parados, melancólicos e graves, olhando a partida do sol, que mergulha lentamente… Escurece. Os pirilampos, nas sebes, acendem as suas lanterninhas verdes. Vênus cintila no alto. E o dia, aqui no sítio, finda, enquanto ao lado alguém ponteia a viola e canta uma dessas lindas canções brasileiras, longas em saudades e ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surge, como a escutar, por detrás dos negros montes… [*11] 

O campo é poesia para o espírito, o campo ao entardecer fica calmo e devagar para descansar o trabalhador do dia. O entardecer suaviza a vida. O campo é paz para os homens. No campo, o fato de ser a noite escura, calma e lenta, faz com que as pessoas fiquem mais juntas, faz o homem trabalhador ver a mulher e saber dos filhos, promovendo a vida em família, tornando-os unidos e felizes. O barulho da cidade atrapalha a vida, não há descanso. O homem não fica calmo. No sítio não, quando anoitece ele canta a vida e o Brasil. A mãe do personagem Mário termina esse diálogo fazendo duas afirmações: primeira, que a calma do campo deixa o homem dormir como se deve dormir e a segunda, que discutiam sobre beleza e não sobre medo e feiura[*12] . O homem que trabalha no campo tem atividades físicas em extremo, por isso precisa descansar, e descansa para trabalhar, para produzir, para melhorar as condições da família e do país. Essa é a beleza do trabalho e da vida no campo.

Mudanças na percepção de campo e cidade

A representação de Brasil de Tales de Andrade em Saudade é, portanto, de um Brasil rural, do homem do campo, que deve ser respeitado e seguido como exemplo de amor à pátria, com quem as crianças devem se identificar, concebendo um sentimento nacional. Destarte, por que Tales de Andrade dá o nome de “Saudade” para esse romance?

Ele escreve essa obra em um momento histórico de modernização e urbanização intenso das cidades e, como já afirmamos, entende essas transformações como algo perigoso. A volta ao campo seria uma forma de se manter distante dessa modernidade que não para nem de dia nem à noite, em que as pessoas correm riscos de falência e mesmo de perderem sua moral. No entanto, não há como retroceder, o campo e o homem do campo vão se transformando, por isso o personagem Mário olha para trás e relembra o que foi a sua vida no meio rural. Mário sente saudade daquilo que o campo já não é mais. Essa é a estratégia da construção da representação de Brasil de Tales de Andrade, fazer as crianças se identificarem com o campo antes que ele desapareça, na tentativa que se crie uma identidade rural nessas crianças leitoras de Saudade. Deve-se criar identidade, pois o campo já não é mais dessa forma, o campo é uma saudade.

Em Campo e Cidade[*13] , Tales de Andrade evidencia uma cidade diferenciada da descrita em Saudade. Mário, ao chegar à cidade de Piracicaba (no livro Saudade a cidade não é nomeada, mas identificamos que não é Piracicaba), logo se encanta com as coisas que a cidade pode lhe oferecer, como carros, bondes, gente pelas ruas. A cidade pareceu-lhe muito agradável, viverá alguns anos nela devido a seus estudos na Escola de Agronomia[*14] .

Diferentemente do que aconteceu em Saudade – quando a família do personagem Mário se muda para a cidade e logo na chegada, Mário considera tudo estranho e enjoativo –, em Campo e Cidade essa impressão altera-se e o personagem se identifica e se sente bem:

Fomos ao centro da cidade, dali a três quadras. Observei muita coisa: ótima iluminação, bonito Jardim Público, bonde elétrico, intenso movimento de gente, sendo a maioria de moços e moças.
Assim, juntei mais essa agradável impressão às que eu tivera da pensão onde iria morar e das pessoas com as quais iria conviver. Isso foi um alívio à dor sofrida pela ausência daqueles que eu deixei tão longe.
Naquela primeira noite, eu deveria estranhar a cama, o quarto, os ruídos da cidade… Isso não me aconteceu. Nem me deitei, adormeci feito uma pedra.[*15] 

Logo em seguida fica claro que o personagem Mário vai utilizar o bonde como meio de transporte na cidade de Piracicaba. Isso é mais um sinal de que a concepção de cidade como lugar de perigo não está mais sendo utilizada pelo autor Tales de Andrade. Em outra passagem, o personagem Mário vai fazer um passeio pela cidade de Piracicaba e descreve uma cidade bonita, com instituições, hospitais, escolas e tudo o que uma boa cidade deveria ter. Em contraposição ao que aconteceu em Saudade, não relaciona as instituições descritas como lugares a que não poderia ir por questões financeiras ou por não possuir trajes sofisticados. Agora o personagem Mário só contempla e admira:

Totó [um motorista de táxi] pôs o veículo em movimento e o fez percorrer ruas largas, direitas e limpas… mostrou-nos lindos jardins, belas igrejas, Câmara Municipal, Estação da Estrada de Ferro Sorocabana, Mercado, Teatro, Cinemas, Fórum, redações de jornais diários, oficinas importantes, grandes fábricas, cerâmicas, distilarias, usinas, uma série de instituições de assistência, socorro e caridade, outra série de grêmios, clubes, sociedades… E escolas, mais escolas, tantas escolas, que escolas! Para tudo tivemos palavras de admiração e de elogios.[*16]

Piracicaba, para Tales de Andrade, passa a ser exemplo de cidade, pois é urbana, possui e conserva belezas naturais e lhe possibilita prestar serviço à pátria, porque possui a Escola de Agronomia, que serve para a formação de mão de obra qualificada para o campo. É o que se identifica no seguinte trecho:

É o Parque da Escola.
.Levantei-me. Curiosamente, procurei ver a ambiciosa Escola Agrícola. -Majestosa! exclamei, avistando-a de relance e à distância.
Adiante, à medida que o bonde avançava, ela deixara de aparecer, encoberta por maciços de árvores. Porém, ao fim da linha, dali a instantes, logo que descemos e caminhamos um pouco, pude vê-la. Encontrei-me ante o monumental edifício. Contemplei-a, de baixo para cima. Lembrei-me de palácios e castelos das histórias maravilhosas. Extasiei-me. Arrebatadamente, eu me antevi aluno. E me antevi AGRÔNOMO.[*17]

A Escola Agrícola é pomposa, pois a sua função é nobre: preparar os futuros patriotas, que assumirão a tarefa de melhorar e desenvolver o campo. É a escola dos agricultores por excelência. Ela possui e desenvolve o conhecimento científico que falta ao campo. Sua estrutura é símbolo de desenvolvimento. O campo, como já tratamos, é o lugar escolhido por Tales de Andrade como lugar ideal para a vida do homem, mas lá não há essa ciência desenvolvida na Escola Agrícola. O campo é saudável, mas falta técnica e conhecimento. A Escola Agrícola é campo, pois seu terreno é uma fazenda, mas está produzindo conhecimentos científicos. A Escola Agrícola denota a possibilidade da junção do conhecimento científico, típico da modernidade e do desenvolvimento urbano, com o trabalho prático, e por vezes manual, do campo.

Há ainda que salientarmos que a cidade de Piracicaba é representada como um lugar harmônico. Na descrição da cidade feita em Campo e Cidade podemos observar que possui casarões, ruas, avenidas, carros, bonde, diversas escolas, além, é claro, da Escola Agrícola. Ao mesmo tempo, é descrita como uma cidade que possui muitas áreas rurais. Vejamos a passagem a seguir:

A nossos olhos fascinados descortinou-se a cidade inteira. Ela nos apareceu em atraente panorama, toda rodeada de mimosas chácaras, seguidas por mirífica paisagem – sítios, fazendas, culturas várias, infindos canaviais, campos, matos… Ficamos empolgados por essa visão de encantos. Após minutos de silêncio, papai estendeu os braços à cidade, chamando-a: PIRACICABA![*18]

Piracicaba, com a Escola Agrícola, caracteriza-se, segundo o olhar de Tales de Andrade, por conciliar o campo e sua cultura com a vida urbana. É campo e cidade ao mesmo tempo. Piracicaba conseguiu unir esses dois universos em uma única cidade, conseguiu harmonizar a tensão que há entre o campo e a cidade. Piracicaba não é retratada no livro Campo e Cidade como agitada, não é barulhenta, apesar de possuir carros, bondes, etc. Ela é tranquila, mas é tranquila porque também é campo e o mantém próximo.

Se a Escola Agrícola é símbolo porque reúne a técnica e o trabalho prático do campo, Piracicaba se torna símbolo de cidade, pois harmoniza as tensões entre o campo e a cidade. Ela é campo e cidade ao mesmo tempo. Um exemplo dessa harmonia pode ser observada em uma passagem do livro Campo e Cidade , em que os personagens abordam as contribuições do campo e da cidade. O campo fornece à cidade uma quantidade muito grande de produtos alimentícios (frango, ovo, feijão, arroz, batata, algodão, etc.)[*19] e o campo recebe de contribuição da cidade os produtos industrializados (chumbo, fósforo, querosene, ferramentas, etc.). Há uma convivência intensa entre o campo e a cidade em Piracicaba. Existe, portanto, uma interdependência.

É possível notar um deslocamento nas posições de Tales de Andrade em relação ao campo, pois, segundo suas colocações anteriores em Saudade, a cidade era o lugar do perigo, de gente “trampolineira”, do insucesso e do fracasso. A modernidade vinha como um desafio e o homem deveria voltar para o campo e lá viver na simplicidade. Já no livro Campo e Cidade ,, quanto mais coisas a cidade fornecer ao campo, tanto melhor. Em Saudade, até a luz elétrica era perigosa, não permitia a noite chegar e fornecer o merecido descanso aos trabalhadores. Já em Campo e Cidade , a eletricidade deve ir ao campo para lhe proporcionar mais conforto.

De Saudade para Campo e Cidade , Tales de Andrade promove uma mudança radical na concepção da relação entre o campo e a cidade. A cidade não é mais o lugar dos perigos da modernidade nem o campo é retratado como um lugar idílico. Campo e cidade podem coexistir em harmonia, o campo completa a cidade e a cidade leva conforto ao campo.

Nesse cenário, identificamos que sobre a cidade de Piracicaba recai uma importância muito forte, pois é com a experiência que o personagem Mário tem nessa cidade que o autor Tales de Andrade manifesta essa nova reformulação. Piracicaba é que tem o campo dentro da cidade e a cidade está integrada ao campo, e se em Saudade o campo era o lugar escolhido para se viver, em Campo e Cidade esse lugar pode ser tanto o campo como a cidade, e mais, pode ser Piracicaba, que tão bem soube se harmonizar, enfrentando e solucionando os dilemas que vinham com a modernidade e a vida urbana, segundo o olhar de Tales de Andrade.

Referências

ANDRADE, Tales Castanho. Saudade. 64. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1974.
______. Campo e Cidade. 1. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1964.
ARROYO, Leonardo. O Tempo e o Modo. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1968.
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos – o breve século XX (1914-1991). 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira: Histórias e Histórias. São Paulo: Ática, 1991.
MENNUCCI, Sud. Aspecto Piracicabano do Ensino Rural. São Paulo: Empresa Gráfica da “Revista dos Tribunais”, 1934.
OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A Questão Nacional na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1990.
QUEIROZ, M. I. P. Bairros Rurais Paulistas. São Paulo: Duas Cidades, 1973.
WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

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