10 fevereiro 2014
10 fevereiro 2014,
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Os candidatos eleitos incorrem em dois perigos: o primeiro, de ser reflexo daqueles que o elegeram, e o segundo, de estar mais visível do que eles (os eleitores). Deste modo, é fácil ver nos eleitos aquilo que não queremos admitir que somos. E como que num ato de purificação, desejamos que ele, o político eleito, receba as culpas de nossos erros, quase como um bode expiatório, isto é, aquele que recolhe todas as culpas, sozinho, e padece por todos nós.

Claro que não se pode isentar o político totalmente de suas ações dizendo que ele está agindo de tal modo porque o povo age assim. Mas que é mais fácil condená-lo do que auto-refletir sobre a própria ação parece ser inevitável.

Se a pessoa, o cidadão, entende que tudo é política, ele se compreenderia como um político e agiria como tal, assim sendo, o representante eleito também seria político de verdade.

Explico!

Tudo o que fazemos é política, afinal, política é a construção de consenso pelo ‘bem comum’. Observe: todas as nossas ações junto com as pessoas precisam de consenso. Num namoro, quando se vai decidir onde sair no final de semana, se não houver consenso entre o casal, um deles ficará chateado e o final de semana se estragará. Na relação entre pais e filhos, por exemplo, em relação ao horário da volta para casa num sábado à noite, se não houver consenso vai existir preocupações para os pais que aguardam o retorno dos filhos, ou tristeza para os filhos que são impedidos de passear devido à falta de acordo.

Isto! Consenso é acordo. Consenso é o ‘bem comum’. E o acordo, o bem comum somente acontece depois que todas as partes são ouvidas. E para serem ouvidas é preciso que se reconheça primeiro, a existência do outro, e segundo, a existência de uma opinião que possa somar ou que possa ser diferente da minha. Isto é a política.

Política é busca pelo bem comum, por acordos em que todos os interesses individuais sejam contemplados e reconhecidos.

O problema é que nos dias de hoje, nas ações cotidianas, já não somos mais capazes de fazer acordos e de buscar o bem comum, pois não somos capazes de ouvir os outros e, muito menos, de reconhecer a existência dos outros. Ao agirmos deste modo nos tornamos incapazes de eleger pessoas que buscam o bem comum, estas nos incomodam com a sua escolha; dizemos, muitas vezes, que são moralistas ou ‘certinhas demais, e, por isso, escolhemos aqueles que são do povo, que são gente como a gente, que são egoístas e individualistas como nós, que só pensam em si. E aí? Que tipo de políticos teremos?

Se quisermos uma renovação no exercício da política, precisamos de uma mudança de pensamento sobre nós mesmos, precisamos nos entender políticos, precisamos em primeiro lugar buscar o bem comum e exercitar os acordos. Somente assim, mudaremos a nossa família, a nossa sala de aula, a nossa comunidade, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso Estado, o nosso País…

Sugiro como leitura interessante sobre este assunto o livro “Ética para meu filho” de Fernando Savater.

 

Fabio Camilo Biscalchin

fabiocamilo@uol.com.br

Professor Universitário, Mestre em Educação (Filosofia)

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