25 setembro 2006
25 setembro 2006,
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Ouvir para pensar, poetar e Profetizar

(Fabio Camilo Biscalchin)

 

Ao optarmos em dizer ‘não’ ao modo-de-ser do falatório, da curiosidade e da ambigüidade, nos abrimos na liberdade à escuta do silêncio. Esta escuta nos faz entender coisas totalmente inesperadas, pois estamos abertos ao ‘nada’ das possibilidades de manifestação do ser.

É o caso do profeta Elias (1 Rs 19, 8-18), que é surpreendido ao se permitir ‘ouvir’ o Sagrado.

Elias percorreu o deserto para subir ao Monte Horebe, na ânsia de encontrar o Sagrado. À noite ele esperou a presença do Sagrado nos sinais tradicionais de sua manifestação: ou no forte vento, ou no terremoto, ou no fogo. Em nenhum destes sinais estava a presença do Sagrado. Elias nesta hora poderia ter se sentido abandonado, mas de repente apareceu uma brisa leve, e ali estava o Sagrado. O Sagrado quebrou os protocolos de sua manifestação e Elias se emudeceu.

“A expressão ‘brisa leve’ traduz o hebraico: qôl demamáh daqqáh. Literalmente:voz de calmaria suave. A palavra hebraica, demamáh, usada para indicar a calmaria, vem de uma raiz, DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. A brisa leve indica algo, um fato, que, de repente, faz emudecer, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar; provoca nela uma expectativa”.[i]

 

O Sagrado faz Elias ‘calar-a-boca’, pois só assim seria capaz de ‘ouvi-lo’. O cala-a-boca, faz gerar o ‘vazio’ em Elias, isto é, ‘destrói’ todas as compreensões de Sagrado que até então Elias possuía, permitindo-lhe, ouvir suas novas manifestações, fazendo com que Elias constatasse, inclusive, que estava errado, pois este se dizia sozinho em sua missão (1 Rs 19, 10.14), mas na verdade havia mais de sete mil pessoas fiéis a Javé (1 Rs 19, 18). Quando nos permitimos a uma abertura ao Sagrado, pelo ouvir que vem com o cala-a-boca, permitimos a manifestação de algo novo a seu respeito que até então não tínhamos ‘ouvido’.

“Deus se fez presente na ausência! A luz apareceu na escuridão! A voz de calmaria suaveera o silêncio de todas as vozes! Elias descobriu que ele estava errado. E descobrindo que estava errado, descobriu a coisa certa! A ‘brisa leve’ é a noite escura da experiência mística; é o sair de si para se encontrar. Ela derrubou tudo e abriu o espaço para uma nova experiência de Deus que, aos poucos, foi penetrando na vida de Elias e o levou a redescobrir sua missão na reconstrução da Aliança”.[ii]

 

Ao permitirmos o Sagrado entrar em nossas vidas, permitimos sua manifestação mais originária, que faz com que nos voltemos a nós mesmos para nos dispormos no modo-de-ser autêntico, que possibilita a abertura do ser em nós. Vejamos a narrativa:

Elias – 1 Reis 19, 8-18

8  Levantou-se pois, e comeu e bebeu: e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horebe, o monte de Deus.

9 ¶ E ali entrou numa caverna e passou ali a noite; e eis que a palavra do SENHOR veio a ele e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?

10  E ele disse: Tenho sido muito zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram o teu concerto, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e buscam a minha vida para ma tirarem.

11  E ele lhe disse: Sai para fora e põe-te neste monte perante a face do SENHOR. E eis que passava o SENHOR, como também um grande e forte vento, que fendia os montes e quebrava as penhas diante da face do SENHOR; porém o SENHOR não estava no vento; e, depois do vento, um terremoto; também o SENHOR não estava no terremoto;

12  e, depois do terremoto, um fogo; porém também o SENHOR não estava no fogo; e, depois do fogo, uma voz mansa e delicada.

13  E sucedeu que, ouvindo -a Elias, envolveu o seu rosto na sua capa, e saiu para fora, e pôs-se à entrada da caverna; e eis que veio a ele uma voz, que dizia: Que fazes aqui, Elias?

14  E ele disse: Eu tenho sido em extremo zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram o teu concerto, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e buscam a minha vida para ma tirarem.

15  E o SENHOR lhe disse: Vai, volta pelo teu caminho para o deserto de Damasco, vem e unge a Hazael rei sobre a Síria.

16 Também a Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei de Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar.

17  E há de ser que o que escapar da espada de Hazael, matá-lo -á Jeú; e o que escapar da espada de Jeú, matá-lo -á Eliseu.

18  Também eu fiz ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que se não dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou.

 

Outra narrativa, que merece destaque, é a que encontramos no evangelho de Lucas (Lc 1, 1-25). É uma nova quebra de protocolos da parte do Sagrado, desta vez com Zacharias, o pai de João Batista. Este é escolhido para entrar junto ao tabernáculo para oferecer incenso e orações ao Sagrado (Lc 1, 8-9).

“E aconteceu que, exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem da sua turma,segundo o costume sacerdotal, coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso”.

 

Num certo momento o ‘anjo do senhor’ se manifestou a ele e disse que sua esposa, estéril e com idade avançada iria conceber. Ele, Zacharias, retrucou o anjo, dizendo ser isto impossível. O anjo o emudeceu para que assim pudesse compreender que o Sagrado se manifestava como queria e quando queria, mas que o ser humano só iria compreendê-lo, na medida em que silenciasse, permitindo a si próprio ouvir a voz daquele que desejava se manifestar (Lc 1, 11-12.18-20).

11 “Então, um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso.

12  E Zacarias, vendo -o, turbou-se, e caiu temor sobre ele.

13  Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João.

18 Disse, então, Zacarias ao anjo: Como saberei isso? Pois eu já sou velho, e minha mulher, avançada em idade.

19  E, respondendo o anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas.

20 Todavia ficarás mudo e não poderás falar até ao dia em que estas coisas aconteçam, porquanto não creste nas minhas palavras, que a seu tempo se hão de cumprir”.

 

O mais interessante acontece no momento em que Zacharias recupera a voz. Neste instante ele quer ‘anunciar’ sobre o que havia ‘ouvido’ do Sagrado. Mas quais palavras usar para manifestar tal desvelamento do Sagrado? Justamente o linguajar poético.

O poeta é o guarda do ser que quer se manifestar através de sua poesia; poesia que brota do ‘ouvir’, que brota do ‘cala-a-boca’, que faz-nos instalar no mundo.

“É na linguagem poética, acima de tudo, que o mundo emerge com instância das relações em que o homem, desde sempre está inserido. Para ele (Heidegger), cada grande poeta poetiza somente a partir de um único poema e sua grandeza se mede justamente em sua capacidade de ser, de tal modo, familiarizado com esse único que ele consegue manter nele seu dizer poético. No entanto, o poema do poeta permanece oculto: nenhuma poesia conseguiria esgotá-lo. Cada poesia, porém, fala a partir do todo do poema, que cada vez se diz. É por isso que a poesia é antes um ouvir do que um dizer, um ouvir do não falado, mas que é condição de todo falar. Justamente aí, onde a linguagem comum se sente incapaz de abrir caminho para o ser, aí a palavra do poeta é decisiva”.[iii]

 

Tudo isto também se aplica ao pensador que permite a todo o momento, o ser preencher seus pensamentos. Vejamos o poema de Zacharias sobre sua experiência de ‘ouvir’ o Sagrado (Lc 1, 68-79):

68 “Bendito o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e remiu o seu povo!

69  E nos levantou uma salvação poderosa na casa de Davi, seu servo,

70  como falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo,

71  para nos livrar dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos aborrecem

72  e para manifestar misericórdia a nossos pais, e para lembrar-se do seu santo concerto

73  e do juramento que jurou a Abraão, nosso pai,

74  de conceder-nos que, libertados das mãos de nossos inimigos, o servíssemos sem temor,

75  em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida.

76  E tu, ó menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque hás de ir ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos,

77  para dar ao seu povo conhecimento da salvação, na remissão dos seus pecados,

78 pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, com que o oriente do alto nos visitou,

79  para alumiar os que estão assentados em trevas e sombra de morte, a fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz”.

 

A estes profetas, podemos juntar, a história a respeito de Heráclito, que diz que “o homem habita, na medida em que é homem, na proximidade de Deus”, isto é, “a palavra nomeia o âmbito aberto onde o homem mora”.[iv]

Ouçamos um relato que Aristóteles fez a respeito de Heráclito, que evidenciará o comonos aproximamos do Sagrado:

“Narra-se de Heráclito uma palavra que teria dito aos forasteiros que queriam chegar até ele. Aproximando-se, viram-no como se aquecia junto ao forno. Detiveram-se surpreso; isto, sobretudo, porque Heráclito ainda os encorajou – a eles que hesitavam – , convidando-os a entrar, com as palavras: Pois também aqui estão presentes deuses…”.[v]

 

O grupo de visitantes se vê frustrados, pois acreditavam que iriam encontrar o pensador em plena atividade pensante, mas ao contrário, o encontram junto ao forno se aquecendo. É um lugar banal e bastante comum. Os visitantes, que se enquadravam no perfil dos típicos curiosos, não imaginavam que um pensador fosse como todos os outros seres humanos, pois, todos os seres humanos, são chamados para a vocação de pensadores, enquanto aqueles que se abrem ao apelo do ser.

Os curiosos, no momento que encontraram Heráclito junto ao forno, recuaram pasmos. Mas Heráclito os encorajou, chamando-os para o encontro com o Sagrado, chamando-os para a ‘salvação’: “os deuses também estão aqui presentes”. Ele revelou o ser, com estas palavras, aos visitantes, dizendo-lhes que este se manifestava em qualquer lugar, na proximidade do homem. O ser se manifesta no corriqueiro, no banal, no familiar, isto significa o ‘também aqui’.

Os visitantes de Heráclito pareciam o profeta Elias, que não reconhecia a voz do sagrado na ‘brisa suave’,  pois havia aprisionado o sagrado nas manifestações tradicionais de seu aparecimento: chuva, vento, trovão, fogo. Mas, o sagrado quebra os protocolos, mostrando que ele se mostra no ‘também aqui’, quando menos esperamos.

 

 

 

[i]MESTERS, C. A caminhada do Profeta Elias. Paranavaí, Livraria Nossa Senhora do Carmo, 1991, p. 19-20.

[ii]Idem, p. 20-21.

[iii]OLIVEIRA, M. A. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. São Paulo, Loyola, 1996, p.218-219.

[iv]HEIDEGGER, Martin. “Sobre o ‘humanismo’ (Carta a Jean Beaufret, Paris)”. In: Os Pensadores. Tradução de Ernildo Stein. São Paulo, Abril Cultural, 1979, p. 170.

[v]Idem, Ibidem.

 

Fabio Camilo Biscalchin

25/09/2006

 

(Também disponível em PDF)

2006-09-25 – O Sagrado Cala a Boca

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