18 setembro 2006
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Responsabilidade Social e o fim da Cidadania

(Fabio Camilo Biscalchin)

A responsabilidade social hoje apregoada pelas empresas não passa de diferencial competitivo para seus produtos. As empresas alcançando os possíveis fatores que agregavam diferenciais para os seus produtos, tais como ISO 9000, 14000, SA 8000 entre outros, abrem um novo campo de negócio, o social. Sim, o social é mais um negócio, e não preocupação ética da parte das empresas. Isto é facilmente percebido quando entendemos que a Responsabilidade Social é algo que nasce do planejamento estratégico da empresa, é um investimento pensado de longo prazo (isto não é ruim), que inicialmente trará custos, mas que no decorrer do processo os benefícios do produto associado com o social serão muitos para a empresa.

Mas isto traz um agravante, as empresas se auto-justificam socialmente responsáveis através da alegação de incompetência dos governos. Em outras palavras, as empresas somente entraram no campo social porque as ações governamentais não foram e não são suficientes para sanar as urgências dos cidadãos, tais como educação, saúde, segurança e outros. A empresa observando esta lacuna descobre sua missãoredentora e entra no lugar do governo para SALVAR A PÁTRIA. Que lindo! (risos). Os empresários, por ‘salvar a pátria’, se auto-intitulam ‘empresários-cidadãos’ e, consequentemente, suas empresas tornam-se ‘empresas-cidadãs’.

O problema é este: quando a ‘empresa cidadã’ é a que passa a garantir os direitos dos cidadãos estes perdem sua liberdade, perdem seus direitos de cidadania, pois seus direitos têm que ser garantidos pelo Estado e não por empresas. Quando a empresa oferece as garantias para a vivência plena de cidadania, perde-se a autonomia do cidadão, este fica atrelado a empresa que ofereceu a ele, cidadão, seus direitos. Ao contrário, quando recebemos do Estado aquilo que é de direito, nenhum cidadão deve obrigações para alguém, ele simplesmente recebeu o que é seu.

E mais, quando a empresa oferece algo que o Estado deveria oferecer, o cidadão perde o seu direito de reclamar por seus direitos, pois a empresa ‘anestesia’ o cidadão de sua dor da ausência de seus direitos. A dor suprimida pelo benefício recebido pela empresa ofusca seu desejo de exigir de modo pleno, e não apenas como um favor interesseiro que vem das empresas, suas garantias para uma vida digna.

É evidente também que atitudes que as empresas consideram Responsabilidade Social são apenas obrigações legais que estão sendo cumpridas, tais como: a não contratação de mão de obra infantil (para que ter um selo para demonstrar este compromisso, se isto apenas é um cumprimento de lei que gera punição caso não seja executada); cuidados com o meio ambiente, evitando poluições através de reciclagem e outros, isto também é exigência de lei; E as demais ações que não necessariamente são obrigações legais são hoje moedas de troca com a sociedade, mesmo aquelas feitas por convicção.

A Responsabilidade Social é a moeda de troca do momento, a empresa faz ações planejadas de melhorias junto ao social, mas espera um retorno substancioso de longo prazo em seus cofres, tanto dos consumidores diretos que são ludibriados pelas novas campanhas de marketing que conferem statusde socialmente responsável para os consumidores ‘conscientes’ que apenas compram daquelas empresas que são ‘boas’ para a sociedade, como para os acionistas que ao observar as aplicações sociais da empresa através do ‘Balanço Social’ sentem-se seguros para fazer seus investimentos em empresas que possuem um fluxo de caixa tão bom o que viabiliza para ela inclusive a aplicação no social.

E o fim da Cidadania vem caminhando em passos largos, pois também os governos ao observar o ‘Balanço Social’ e outras ações das empresas percebe que não precisam mais investir em determinados setores sociais, deixando-os a sorte das iniciativas privadas que buscam alvos que geram visibilidade para suas aplicações de troca. Com isso os direitos de todos nós cidadãos vão sendo terceirizados ao bel prazerdaqueles que podem oferecer mais.

Então fica claro que a Responsabilidade Social é do departamento de planejamento e estratégia da empresa, e não uma ação ética da empresa. Afinal, é estranho querer ser ético esperando algo em troca. O que você pensa?

 

Fabio Camilo Biscalchin

18/09/2006

(Também disponível em PDF)2006-09-18 – Responsabilidade Social e o fim da cidadania

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